18 de outubro de 2021

O cair no Espírito nos dias de Jonathan Edwards


 Por Everton Edvaldo

Este artigo é destinado à 3 públicos distintos:

- Aos Pentecostais desavisados que muitas vezes, caem no “canto da sereia cessacionista” de reproduzir discursos prontos, sem analisar a veracidade dos mesmos.

- Aos Cessacionistas ignorantes que repetem essas acusações por desconhecimento ou porque foram ensinados a pensar desta forma.

- Aos Cessacionistas desonestos que conhecem a verdade histórica, mas mesmo assim, preferem continuar espalhando inverdades e rotulações inapropriadas sobre outras tradições. 

Dito isto, gostaria de deixar claro que este artigo não será exaustivo em sua abordagem, antes, trará dados e fará provocações teológicas com base nos mesmos.

O objetivo desse texto é provar que essas manifestações não são práticas que surgiram com os pentecostais ou neopentecostais como muitas vezes querem jogar na nossa conta.

I- A QUESTÃO BÍBLICO-HISTÓRICA

Se você gosta de estudar minimamente teologia, já se deparou com alguma polêmica relacionada à pneumatologia. Ou até mesmo, já se pegou assistindo vídeos de cristãos pentecostais, carismáticos ou neopentecostais “caindo no Espírito.” Já se escandalizou com cenas onde Kenneth Hagin ou Benny Hinn, derrubaram pessoas nos cultos.

Bem, embora esse exemplo seja extremo e exótico, a grande verdade é que a manifestação do cair no ou pelo Espírito é algo que ocorreu em todos os principais avivamentos ou despertamentos que houveram na história do Cristianismo.

E apesar de muitas vezes ser associado aos Neopentecostais, já era algo que ocorria nos cultos pentecostais de Azusa e em muitos outros círculos paralelos. Eu não quero entrar no mérito de como isso acontece no Neopentecostalismo, mas em síntese, gostaria de deixar claro que não é porque esta manifestação ocorre entre eles, que esta em si seja algo errado ou diabólico.

No caso dos Neopentecostais, a manifestação é bem controversa e como não é o objetivo deste artigo entrar nesses detalhes, me resumo a dizer que creio que algumas dessas manifestações são autênticas, outras são manipuladas, exploradas e ainda outras são fruto de mero emocionalismo, psiquismo barato, e até mesmo influência maligna. Mas isto de modo algum significa que toda manifestação desta natureza seja antibíblica.

Também não pretendo gastar tempo aqui, tratando de tópicos como: esta manifestação é do Espírito ou é uma reação do corpo humano ao Espírito Santo? Deixarei isto para outro artigo.

Mas algo que vale a pena ser comentado é que todas as vezes, que esse assunto é levantado, muita gente recorre ao argumento de que essa e outras manifestações são do diabo simplesmente por não estarem presentes na Bíblia, muito embora haja aqueles que encontrem nas narrativas veterotestamentárias e em outros textos, uma referência da manifestação em algum momento.

Contudo, ainda que não haja nenhum versículo sequer mencionando ou listando este tipo de manifestação, ainda assim, isso não se constitui evidência suficiente para classificarmos as mesmas como antibíblicas, pois como sempre digo em meus artigos: nem tudo que é extrabíblico, é antibíblico.

Então se não há passagens aprovando ou desaprovando essa e outras manifestações, como iremos julgá-las? Isto não cairia num subjetivismo desenfreado?  De forma alguma! A resposta é simples: devemos avaliá-las com os mesmos critérios em que são subjugadas aquelas experiências que estão claras para nós nas Escrituras. Isto é, devem ser submetidas ao crivo da Bíblia.

Eu penso que esse caminho hermenêutico é mais sensato e coerente do que aquele que é adotado por boa parte dos pentecostais e cessacionistas do nosso país: adotar uma postura fundamentalista, rejeitar estas manifestações e ocultar a história do Cristianismo, maquiando o que não lhe convém, ou adulterando simplesmente o que não cabe na caixa teológica da sua tradição tupiniquim. Digo isto porque não somente o Cair no Espírito, como outras manifestações estão presentes nos mais diversos ramos do Cristianismo, seja ele marginal ou conservador. Ignorá-las ou jogá-las nas costas do diabo não resolve o problema, antes, agrava-o. Eu pretendo em outro momento deixar uma lista de obras que testificam o que levanto neste parágrafo (mas para os mais curiosos, podem ler a obra 2000 anos de Cristianismo Carismático, do autor Eddie Hyatt), por ora, gostaria de trazer a contribuição teológica e histórica de alguém que é respeitado e admirado por todos os cristãos: Jonathan Edwards. 

II- A CONTRIBUIÇÃO DE JONATHAN EDWARDS

Todos conhecem o legado de Edwards para aquilo que ficou conhecido como o Primeiro Grande Despertamento, um momento histórico marcado por um Avivamento Transcontinental, protagonizado em grande parte por este personagem. Contudo, o que poucos sabem, é que embora o cair no Espírito seja uma manifestação rastreável já nos dias da Patrística, era algo que ocorria nas reuniões Edwards.

Pois bem, durante os anos de Avivamento, Jonathan Edwards percebeu que alguns fenômenos ocorriam nos cultos. Ele os classificou como sendo manifestações mentais e físicas.  

Estas manifestações são consequências ocasionais de descobertas espirituais e curiosamente, um desses primeiros fenômenos seria a perda da força natural.

Nas suas palavras, “algumas pessoas têm tido anseios tão intensos por Cristo, ou que se elevaram a tal ponto, que perderam a sua força natural.” (MATTOS, 2006, p. 43)

Outra manifestação seria sobre a mente das pessoas. Isto, seria em decorrência da estreita ligação que existe entre a parte imaterial (alma e espírito) e a material (corpo). Todas elas estão interligadas e exercem influência uma sobre as outras. Ele explica:

“Sim, eu não vejo nenhum fundamento sólido e seguro que qualquer pessoa possa ter para afirmar que Deus nunca produzirá essas fortes impressões sobre a mente, através do seu Espírito, a ponto de ocorrer tamanho enfraquecimento da estrutura do corpo que a pessoa ficará privada do uso da razão.” (MATTOS, 2006, p. 49)

Edwards precisou lidar com esses fenômenos, principalmente por três razões: primeiro, eles não eram incomuns, segundo, os seus opositores estavam usando tais manifestações como prova de que o seu avivamento era falso e terceiro, paralelamente à essas manifestações, ocorriam muitas outras com motivações malignas, por isso, ele precisou tratá-las a fim de que os cristãos pudessem ter discernimento entre as coisas espirituais e as que não eram.

III- O RELATO DAS MANIFESTAÇÕES

            Trago agora os relatos do próprio Jonathan Edwards sobre algumas manifestações que as pessoas desfrutavam em decorrência do avivamento:

1. Capacidade de permanecer de pé ou de falar afetada:

“Noções extraordinárias sobre as coisas divinas, e as afeições religiosas, frequentemente eram acompanhadas de efeitos muito grandes sobre o corpo... A pessoa ficava destituída de toda a capacidade de ficar de pé ou de falar.” (MATTOS, 2006, p. 50)

2. Perda da força física:

“A força do corpo com muita frequência era suprimida com um profundo lamento pelo pecado, como algo cometido contra um Deus tão santo e bom...” (MATTOS, 2006, p. 50)

“Havia tamanho sentimento da glória do Espírito Santo, como o grande Consolador, a ponto de subjugar tanto a alma como o corpo; somente a menção da palavra Consolador retirava imediatamente toda a força.” (MATTOS, 2006, p. 50)

3. Cair pelo Espírito:

“Era frequente que muitas pessoas fossem tomadas de modo tão extraordinário pelo terror ao ouvirem a palavra, com o Espírito de Deus convencendo-as do pecado, que elas caíam ao chão e eram levadas para fora da igreja, e depois se revelavam cristãos muito sólidos e dinâmicos.” (MATTOS, 2006, pp. 50,51)

Ele usa como evidência bíblica, as experiências de Daniel na Babilônia (Dn 10.6-8) e de João na Ilha de Patmos (Ap 1.17) que caíram ao chão diante da manifestação de Deus.

4. Aumento dos batimentos cardíacos, lágrimas, tremor, choro e convulsões. (MATTOS, 2006, p. 51)

            Comentando sobre a ênfase em clamores, desmaios e outros efeitos corporais, ele conclui: “existem todas as evidências de que as pessoas nas quais aparecem esses efeitos estão sob a influência do Espírito de Deus...” (MATTOS, 2006, p. 57)

De uma forma menos comum, mas ainda assim interessante, Edwards relata casos em que pessoas foram privadas da sua razão, mas esta não foi a única manifestação mental presenciada em seus dias.

5. Almas transportadas extraordinariamente:

“Tenho conhecido pessoalmente muitas pessoas que têm experimentado os transportes elevados e extraordinários dos dias atuais... A pessoa mais de uma vez permaneceu por cinco ou seis horas a fio, sem interrupção, com um senso claro e vivo da infinita beleza e da bondade da pessoa de Cristo... A alma permaneceu nas alturas, esteve perdida em Deus e parecia quase deixar o corpo...” (MATTOS, 2006, p. 52)

IV- MANIFESTAÇÕES ENTRE OS OUTROS PROTAGONISTAS DO AVIVAMENTO  

            Estas manifestações eram conhecidas não somente por Edwards, mas também por outros personagens que viveram em seus dias.

            Charles Chauncy, por exemplo, um opositor dessas manifestações, traz um relato sobre um dos cultos: “Alguns estavam gritando em aflição e angústia, alguns orando; outros cantando, outros saltando pela casa, enquanto que outros estavam exortando, alguns deitados no chão e outros andando e conversando.” Enquanto isso, outros “gritavam com grande riso, rindo e cantando, saltando e batendo palmas.” (MATTOS, 2006, p. 70)

            Segundo Clarke Garret:

“Um dos defensores mais zelosos dos avivamentos foi Andrew Croswell... Tendo levado a sua congregação a um auge de excitação descrito por uma testemunha hostil como ‘os mais impressionantes grunhidos, gritos, desmaios, convulsões e visões’, Croswell fez uma viagem de pregações no sudoeste de Massachusetts no início de 1742... Ele levava a si mesmo e aos seus ouvintes ao frenesi, até que, enquanto muitos clamavam em êxtase ou angústia, ele declarava ‘que o Espírito do Deus vivo tinha descido ou estava descendo entre eles.” (MATTOS, 2006, p. 70)

Um outro caso seria o do reverendo Nicholas Gilman, pastor em Durham. Nas palavras de Garret:

“No outono de 1741, ele começou a realizar reuniões vespertinas em casas particulares, nas quais lia em voz alta sermões de Edwards... Em um culto de vigília, o próprio Gilman teve uma experiência de êxtase e foi ‘levado a clamar em alta voz- Glória de Deus nas alturas, Glória ao Redentor etc.- por um tempo considerável. A experiência também o persuadiu de que as pessoas de sua igreja que haviam afirmado terem visto pombas, anjos e luzes brilhantes no templo tinham de igual modo sido visitadas pela divindade. Ele começou a registrar as visões de seus paroquianos e a lê-las em reuniões particulares. Não é de surpreender que os transes e as visões tenham se tornado cada vez mais frequentes. Uma jovem caiu em um êxtase prolongado no qual ‘ficou bendizendo e louvando a Deus em sussurros, na linguagem de uma alma virtualmente no céu.” (MATTOS, 2006, p. 72)

            Mas também haviam casos de ministros mal intencionados como é o caso de Davenport que incentivava nos cultos ruídos, brados e agitações do corpo. Este, anos mais tarde reconheceu seus excessos, entendendo que muitos eram resultado de influencia do diabo. (MATTOS, 2006, p. 71)

V- O CUIDADO DE EDWARDS E A APLICAÇÃO PARA OS DIAS DE HOJE

            Segundo Jonathan Edwards, existe um segredo para avaliar se alguma obra é de Deus ou não. Nas suas palavras, “devemos observar o efeito operado e se, ao examiná-lo, o acharmos em harmonia com a Palavra de Deus, devemos descansar nisso como uma obra de Deus.” (MATTOS, 2006, p. 47)

            Para o reformado Luiz Roberto França de Mattos, “o critério de Edwards para avaliar os fenômenos estranhos do Grande Despertamento não está relacionado com as experiências, mas com os seus resultados. A sua preocupação preliminar está ligada ao fim, a saber o efeito produzido, ao invés dos meios, as experiências em si mesmas. E quando ele avalia as consequências finais e duradoras dos fenômenos, ele encontra fortes razões para ver Deus como a fonte deles.” (MATTOS, 2006, pp. 53,54)

            Em outro trecho da obra, ele repete o argumento: “A grande preocupação de Edwards não se refere às próprias experiências, mas aos seus resultados. Deus é apresentado como a fonte principal desses fenômenos inusitados. Os seus resultados, afirma Edwards, asseguram isso.” (MATTOS, 2006, p. 67)

            Fica claro que Edwards usa o mesmo critério que mais à frente seria absorvido por John Wesley, incorporado por Charles Finney e herdado pelo movimento Pentecostal: Deus não está preso aos meios, nem aos métodos, mas está focado em resultados! Acontece que muitos reformados que admiram Edwards, fecham os olhos para essa realidade, enquanto que jogam pentecostais e seus antepassados na ala do pragmatismo.

            Outra coisa vale à pena ser dita é que Edwards não reconhece como espiritual toda e qualquer manifestação desta natureza, antes, ele reconhece que por trás de alguns destes fenômenos, por vezes, estava presente a ação de Satanás, tentando enganar os participantes e os promotores do avivamento. (MATTOS, 2006, p. 54)  No entanto, os frutos e a transformação que acompanham essas experiências são cruciais para identificar Deus como a verdadeira fonte desses fenômenos. (MATTOS, 2006, p. 67)

            Ele também faz importantes declarações sobre o lugar que as pessoas colocam essas manifestações, muitas vezes, acima da própria graça de Deus:

“Um homem pode ter dez mil dessas revelações e orientações do Espírito de Deus e ainda assim não ter uma vírgula de graça em seu coração... Se uma pessoa recebe alguma revelação  da parte de Deus ou é orientada a fazer qualquer coisa por uma voz do céu, ou por um sussurro, ou por palavras sugeridas à sua mente, não existe nada que tenha a natureza da graça simplesmente nisto; é algo que tem a natureza de uma influência comum do Espírito e não passa de escória em comparação com a excelência daquela direção graciosa do Espírito que os santos têm. Essa maneira de ser orientado sobre aonde ir e o que fazer não é mais do que aquilo que Balaão recebeu de Deus.” (MATTOS, 2006, p. 62)

Perceba que Edwards não está reprimindo ou desacreditando as revelações, antes, ele está exortando que quem as têm, não pode com isso achar que elas são superiores ou ocupam o lugar da revelação maior de Deus, a saber: Sua Graça Salvadora.

O mesmo acontece em sua avaliação sobre outras manifestações. Por exemplo, embora ele reconheça que não sejam melhores, ainda assim, elas resultam da grandeza das experiências espirituais:

“Nem sempre são melhores [as experiências] que são acompanhadas das afeições mais violentas, dos movimentos mais veementes da natureza animal ou que têm os maiores efeitos sobre o corpo... embora essas coisas com frequência resultem da grandeza das experiências espirituais.” (MATTOS, 2006, pp. 64,65)

Pois bem, é admirável que Jonathan Edwards há tantos séculos tenha uma visão anos à frente de muitos dos seus admiradores nos dias de hoje que jogam o “bebê fora junto com a água suja do banho.”

Isto é, os Cessacionistas não necessitam demonizar muitas manifestações que ocorrem nos dias de hoje, nem jogá-las nas costas de Pentecostais ou Neopentecostais visto que elas ocorreram inclusive no passado em arraiais reformados.

Por outro lado, pentecostais precisam parar de se esquivar dos registros históricos dessas manifestações em seu meio, na tentativa de se livrar das acusações vindas dos cessacionistas. Reconhecer que o cair no Espírito pode ser uma manifestação fruto do contato entre o divino e o humano, não faz do Neopentecostalismo um movimento limpo perante Deus e a Bíblia, da mesma forma que não significa que devemos encorajar tais manifestações e apoiá-las em todos os sentidos.

É preciso ter cautela e sobretudo sabedoria bíblica para lidar com cada caso, ao invés de colocar tudo numa caixa de sapato e tocar fogo. Que Deus continue nos ajudando e nos abençoando!

Obras Citadas

MATTOS, L. R. (2006). Jonathan Edwards e o Avivamento Brasileiro. São Paulo: Cultura Cristã.

 

20 de junho de 2020

Dicas cruciais para quem deseja escrever artigos para as mídias sociais.


Por Everton Edvaldo


Introdução:  Várias pessoas me perguntam como faço para escrever artigos, se uso alguma metodologia e como organizo meu tempo. Bem... Confesso que não é uma tarefa fácil, muito menos que terá sucesso do dia para noite. Mas garanto: você terá muito tempo para crescer e amadurecer nessa área. Afim de estimular a produção escrita de alguns pentecostais que gostam de ler e escrever, resolvi escrever esse texto dando dicas de como vocês podem colocar todas as suas ideias num artigo e publicar na internet. Vamos lá?

I- A PREPARAÇÃO

1- Aproveite todos os recursos que estiverem disponíveis.

Já dizia o ditado: "tempo é dinheiro." Não é toda semana que a gente tem disponível aquelas 3 horinhas pra sentar, organizar as ideias e escrever, mas eu tenho uma boa notícia: você pode fazer isso por etapas. Como funciona? Durante a semana você vai montando seu script e escrevendo aos poucos através de várias ferramentas. Quando você finalmente sentar para se dedicar ao artigo, 80% do seu trabalho já estará feito. Eu por exemplo escrevo pelo bloco de notas do celular, em folhas de caderno soltas e no word do Notebook. Isso me dá mais liberdade para escrever, de modo que uso os espaços e intervalo de tempo no ônibus, trabalho e na minha própria casa. Às vezes, estou sem disposição para ligar o notebook, então pego o celular e começo a escrever.

2- Não escreva de uma vez. Vá aos poucos.

A pressa é inimiga da perfeição. Antigamente eu gastava menos tempo para escrever artigos, isso porque eu terminava um e já começava outro. Atualmente, eu raramente sento para escrever um artigo de uma única vez (só quando a inspiração tá muito grande) geralmente, vou montando os pedaços aos poucos até concluir tudo. É menos cansativo e mais proveitoso porque você tem um certo tempo para maturar as ideias e aperfeiçoar seu trabalho.

3. Seja interativo com seu público.

Ou seja, tente colocar a linguagem do seu artigo em contato com seu público. Isso facilita a comunicação. Por exemplo se seu público é mais jovem, a linguagem precisa ser mais acessível a eles. Se é mais leigo, não pode ser tão rebuscada. Se é direcionado a acadêmicos, não pode ser simplista e assim por diante. Outra dica que me ajuda bastante é que eu costumo fazer enquetes ou perguntas durante a produção do meu texto nas mídias sociais. Assim, surge uma ideia aqui, uma crítica ali, uma ajuda aqui e acolá. Lembro-me quando estava escrevendo meu artigo sobre o ministério feminino no Movimento Pentecostal, os seguidores interagiram tanto (negativamente e positivamente) que isso contribuiu para aprimorar minha escrita. Para ser mais efetivo na comunicação, descubra a faixa etária do seu público e gênero. Isso ajuda bastante na hora de preparar um artigo. Essas informações devem nortear todo o processo de escrita.
4. Organize as ideias antes de colocar no papel. Se você dividir seu artigo em tópicos ou partes, ficará melhor para escrever. Ninguém gosta de ler um texto com ideias desencontradas, principalmente na nossa época, onde as pessoas são cada vez mais metódicas e sistemáticas.

II- O CONTEÚDO

Eu considero três elementos cruciais para a escrita de um bom artigo nos dias de hoje.

1. Problemática. Em primeiro lugar, levantar a problemática é um bom ponto de partida. Aqui você vai identificar a demanda/necessidade e as deficiências acerca do acerto que você está falando. Por exemplo, se seu artigo tem por título: "Resgatando a identidade Pentecostal", você precisará mostrar o porquê é necessário falar nisso nos dias de hoje. O que tem feito com que se fale no resgate da identidade Pentecostal? Quais são os fatores? O que não é identidade Pentecostal? E por aí, vai...

2Provocação. É o momento onde você vai confrontar o assunto que você está falando com a realidade. Isso pode ser feito através do uso de um pensador, ou até mesmo de uma crítica. Quando você se dispõe a colocar um pensamento sob escrutínio, o seu texto, além de ficar mais interessante, coloca o autor em contato com outras vertentes sobre aquele assunto. Aqui você vai mostrar o porquê "você acredita no que acredita."

3. Resolução. Apontar os problemas sem mostrar possíveis alternativas não é legal para seu texto. Mesmo se seu texto for uma crítica, ele precisa acenar soluções. Afinal as pessoas precisam saber no que devem melhorar e ninguém melhor do que o problematizador para instrumentalizar esse percurso.

III- O TEXTO

-Estrutura. Seu texto precisa ter começo, meio e fim. A ordem a ser seguida é basicamente essa: introdução, desenvolvimento e conclusão. Todas três precisam estar interligadas e bem distribuídas.

-Dados. Se quiser ter suas ideias aceitas com mais credibilidade, deixe seu texto recheado de boas referências bibliográficas, porcentagens, informações e dados concretos.

-Ortografia/Gramática. Certifique-se de que seu texto está em paz com a Língua-Portuguesa. Uma dica que sempre dou é: pegue seu texto e disponibilize para 5 ou mais amigos/pessoas. Elas irão ler e dar o feedback. Esse feedback pode incluir críticas, sugestões e correções. É maravilhoso! Verifique se há coesão e coerência no seu texto e faça os ajustes que for necessário fazendo uma revisão antes de publicar. Evite jargões, termos informais e coloquiais.

-Objetividade. Seu texto não precisa ser prolixo para ser profundo e impactante. Há pessoas que enchem linguiça no texto ou arrodeiam demais para dizer o óbvio ou coisas que qualquer um diria num dia ensolarado.  Você precisar ir direto ao ponto. Você pode criar interesse e expectativa no seu público dessa forma. Fazer o percurso contrário fará com que você corra o risco de o leitor não ler seu texto até o fim ou se cansar nos primeiros três parágrafos.

-Digressões. São desvios momentâneos do assunto sobre o qual se fala ou escreve. É muito importante que você tenha cuidado com as digressões. Há escritores que começam falando de um assunto, fogem do tema e nunca mais retornam. Devemos estar atentos a isso, pois, além de prejudicar nosso texto e imagem, acaba nãos satisfazendo o nosso público.

Conclusão: Espero que esse breve texto possa ter contribuído para aqueles que querem escrever, mas que não sabem como começar. Espero que tenha ajudado! Agora é só colocar a mão na massa! Lets go!

4 de junho de 2020

Como os pastores devem lidar com jovens pentecostais que estão flertando com o calvinismo?




Por Everton Edvaldo

Introdução: Nos últimos 2/3 meses, o tanto de mensagens que tenho recebido de pastores e líderes de todo o Brasil que estão com problemas com jovens pentecostais que estão flertando com o calvinismo não está no gibi. Dessa forma, pensei em escrever esse texto propondo dicas e conselhos que podem ajudar os pastores na hora de lidar com problemas dessa natureza. Boa leitura!

ENTENDENDO O PROBLEMA:

Muitos procuram fórmulas e receitas prontas que vão funcionar em todos os casos, porém, o que você, leitor, verá aqui são princípios gerais que podem ser flexibilizados mediante a particularidade de cada contexto e região. No entanto, é impossível fazer isso sem que se entenda o que tem feito com que os jovens pentecostais se tornem calvinistas. Se você aplica resoluções sem entender o problema, corre o risco de agravá-lo ainda mais, sem falar que vai tratar com os sintomas e não com a causa. Lembre-se que árvore que não tem sua raiz arrancada, mas somente os galhos, um dia volta a florescer. Logo, é de extrema importância que você entenda a raiz do problema que pode ser uma, duas ou até mesmo várias, sem falar que pode partir de algo externo ou até mesmo de você. Boa leitura!

1. Quando o problema está em você.

Muitos pastores são responsáveis ainda que indiretamente pelo que tem acontecido com a juventude pentecostal. Vejamos agora alguns fatores:

a) Omissão. Infelizmente, por muitos anos, boa parte da liderança pentecostal no Brasil foi omissa com relação a esse assunto. Muito embora a nossa identidade desde há muito tempo tivesse estabelecida, muitos pastores erraram quando não investiram teologicamente na juventude. Erraram quando não trataram as pregações antropocêntricas, triunfalistas e semi-pelagianas dos seus púlpitos. Erraram quando não deram uma boa base teológica pentecostal ainda no discipulado desse público juvenil. E ainda hoje erram na forma como lidam com nosso público, simplesmente muitas vezes, por não falar a nossa linguagem. Muitos pastores não estão haptos para falar às novas gerações que estão surgindo.

b) Subestimação. Um dos problemas na liderança das igrejas também se dá pelo fato de que alguns pastores, diferente do apóstolo Paulo, ignoram a voz da juventude. Esquecem que somos a igreja de amanhã e que não servimos apenas para encher os templos nos cultos e congressos com duas horas de louvor fervoroso e radiante, mas de que também temos potencial para falar à nossa própria geração. Um jovem pentecostal que abraçou a teologia calvinista influenciará outros jovens da congregação muito mais rápido que o pastor de lá. Não tenha dúvidas disso.

c) Ignorância. Muitos pastores também ficaram devendo na hora de se preparar para falar às novas gerações. Hoje, qualquer jovem mediano pentecostal tem acesso à internet, e domina assuntos que seu pastor muitas vezes, sequer sabe que existe. Então o jovem pentecostal não encontrando uma ponte entre sua geração e a geração do seu pastor, acaba entrando em contato com a teologia reformada sem uma boa preparação em suas próprias raízes. E aquele velho ditado se repete: o que ele não encontra em casa, vai procurar na rua...e acha! Boa parte dos jovens pentecostais que flertaram ou abraçaram o calvinismo, se tornaram calvinistas não porque a teologia pentecostal não fosse sólida e robusta, mas simplesmente porque nem sequer ouviram que existia teologia pentecostal.

Evite esses erros!

2. Quando o problema está fora.

Tudo é um ciclo, e como uma coisa puxa a outra, em conjunto com essas posturas, o jovem pentecostal encontrará outras pedras ao longo da sua jornada. Veremos algumas delas:

a) A Internet. O mundo de hoje é digital, online, virtual e acreditem, boa parte da juventude pentecostal além de estar presente na internet, são pessoas que gostam de ouvir pregações, tirar dúvidas sobre o cristianismo e Bíblia, além de ter curiosidade por aquilo que é diferente. Resultado: como os reformados representam um algoritmo gigantesco de visualizações e conteúdo na internet, os pentecostais acabam entrando em contato com a teologia reformada e nesse caso, o problema não é nem esse, pois vale lembrar que a teologia reformada não é nossa inimiga, muito menos não é uma tradição que não tem nada a agregar à nossa fé. O problema é quem está indo lá assistir esses vídeos são jovens que não possuem os pés bem firmes na sua própria tradição. Esse jovem será uma isca fácil e logo estará na internet e na congregação influenciando outros jovens e formando a próxima geração de ‘pentecostais reformados’. Os caminhos que eles traçam são três: um menos prejudicial e menos comum que é o de ser calvinista, porém respeitar a identidade pentecostal da congregação que ele pertence.  O segundo é o do proselitismo. Esse jovem não quer sair de sua igreja para ir para uma presbiteriana, até porque o jovem que se encaixa nesse perfil, não abrilhanta os olhos pela liturgia presbiteriana, por assim dizer. Então ele provavelmente vai dar trabalho ao pastor em sua própria congregação, uma vez que fará de tudo para convencer a tudo e a todos do ele acredita, propondo muitas vezes, novas expressões do tipo ‘pentecostal reformado’ que é um outro nome para alguém que é um continuísta calvinista. O terceiro tipo será o jovem que vai conhecer a teologia reformada, se tornar calvinista e migrar para uma igreja reformada. Essa parcela ainda é mínima em nosso meio, o que não deixa de ser preocupante. Porém, não existe um tal "Êxodo Pentecostal", conforme tem sido pregado por muitos reformados. A verdade é que uma parcela grande daqueles que saem das igrejas pentecostais não queriam sair, eles queriam simplesmente que sua igreja melhorasse. Então eles procuram suas melhoras, porém, alguns não conseguem se adaptar ao ambiente reformado e acreditem, se tornam desigrejados. 

b) As livrarias: A grande massa dos materiais literários que ocupam as prateleiras das livrarias evangélicas ainda são livros reformados. Vamos censurar ou deixar de vender livros reformados por conta disso? Não, pelo contrário, devemos consumi-los, mas só depois de nos certificarmos de que conhecemos bem a nossa própria tradição. O jovem pentecostal que vai numa livraria não tem esse discernimento e geralmente, acha que todo livro que vende ali, reflete o que a Bíblia ensina. Essa inocência será seu atestado de mudança de identidade. Logo em breve, se tornará um calvinista, muito provavelmente. Não é adivinhação, apenas constatação a partir das estatísticas.

c) As referências externas. Você sabia que as referências externas podem ser um problema para a juventude da sua igreja? Quem são as pessoas que são referências na sua congregação? São pregadores e cantores que pregam e cantam mensagens antropocêntricas, triunfalistas e antibíblicas? Então pode ter certeza que os jovens da sua igreja vão buscar referências sérias. E sabem quem eles encontram? Pessoas como Augustus Nicodemus, Hernandes Dias Lopes, Jonas Madureira, dentre outros reformados. Se as novas referências delas são cristãos calvinistas, você acha mesmo que ela também não será?

d)  A postura dos pentecostais na mídia. Infelizmente, os pentecostais brasileiros ainda são bastante desunidos. Somos especialistas em denegrir a nossa própria imagem. Veja como funciona o clico: boa parte dos reformados que estão na internet não fazem o devido discernimento entre aquilo que é Pentecostalismo Clássico e Neopentecostalismo. Por causa disso, eles veem tudo como uma coisa só, e as atrocidades e bizarrices neopentecostais também são colocadas nas costas dos pentecostais. O problema é que a internet também está cheia de pentecostal que ‘mete o pau’ não somente no neopentecostalismo, mas também em outros pentecostais. Resultando: alimentam ainda mais a imagem embaçada que os reformados têm de nós. Dessa forma, quando um jovem pentecostal entra em contato com a literatura reformada, estará lidando com um material que (de modo geral) vê o pentecostalismo de forma ruim, como um movimento que não tem teologia, nem hermenêutica, nem seriedade. Ou seja, o material que ele tem acesso vai ratificar aquela imagem que ele já tem a partir do que ele vê no seu próprio contexto.

PRINCÍPIOS GERAIS PARA LIDAR COM ESSES PROBLEMAS:

O Pastor pentecostal precisa estar atento à essas questões, levando em consideração algumas dessas dicas:

a) Faça uma mentoria mais de perto com seus jovens. O que ele leem? Quais são suas influencias e referências? Lembre-se que você pode mapear seus passos, não para censurá-lo, mas para orientá-lo de modo seguro entre os seus estudos teológicos.

b) Prepare 5 ou 10 jovens que formem outros jovens. Acredite, os jovens conseguem influenciar outros jovens muito mais rápido do que você. Eles se identificam bem mais com quem fala sua linguagem por assim, dizer, então é de suma importância que você dê voz e espaço para que sua equipe tenha jovens que influenciem outros.

c) Invista na juventude. Invista tempo e dedicação na sua juventude. Dessa forma vão se sentir mais acolhidos e será mais fácil de lhe ouvir.

d) Promova eventos para falar sobre o assunto. Promova Congressos, palestras, cultos de instrução sobre esse assunto. Os temas podem ser tanto apologéticos quanto expositivos no sentido de expor o que a igreja acredita e porque acredita naquilo. No caso das Assembleias de Deus, que tal tirar alguns dias para expor a Declaração de Fé da Igreja? Ou um dia para expor os 5 pontos do Arminianismo e relacioná-los com a Bíblia? Ou até mesmo mostrando o porque que um pentecostal não deve ser calvinista?

e) Conheça o assunto e esteja preparado para as dúvidas que vão surgir. Não apenas os jovens devem conhecer sobre a temática. É seu papel estuda-lo e estar bem resolvido teologicamente. Muitos pastores não estão nem mesmo seguros sobre sua teologia, dessa forma, devem estudar à fundo livros e obras que abordem essas questões.

Além disso, ore pela sua juventude, tenha paciência e esteja pronto para exercer uma liderança antes de autoritária, servil. Que Deus abençoe a todos!


3 de junho de 2020

Vamos falar sobre Cosmovisão Pentecostal?





Everton Edvaldo

Em qualquer livraria evangélica brasileira, é natural encontrar pelo menos, um livro que fale sobre Cosmovisão cristã. Acontece que boa parte dos materiais em Língua-Portuguesa, trazem uma perspectiva reformada sobre esse assunto. Os Pentecostais muitas vezes, bebem desse tipo de literatura por falta de opção em língua vernacular, o que nos leva para a seguinte realidade: há uma escassez de obras que toquem nessa temática. Mas calma ai... existe essa tal “Cosmovisão Pentecostal?” Sim, muito embora a teologia pentecostal foque seus debates no papel do Espírito Santo, nos dons espirituais, batismo no Espírito Santo e Línguas evidenciais, seria muito simplismo dizer que os pentecostais só têm a contribuir para a área pneumatológica da teologia. A própria história do Pentecostalismo, atesta que ao longo dos anos, o movimento Pentecostal estruturou na prática, sua própria forma de cosmovisão (muito embora a reflexão acadêmica e conceitual seja mais recente). Mas o que é cosmovisão? É a nossa visão de mundo. A pergunta que devemos fazer é: o que o Pentecostalismo teria de único que o faria ser visto como tendo sua própria cosmovisão? Bem, atualmente essa expressão tem sido discuta e mencionada com frequência em obras de teólogos Norte-Americanos. Hoje eu gostaria de falar com vocês a partir do que escreveu o filósofo Pentecostal J.K. Smith em sua obra “Thinking in Tongues” (Pensando em Línguas). Vamos lá?

CARATERÍSTICAS DE UMA COSMOVISÃO PENTECOSTAL

Smith começa sua obra convidando os pentecostais a desenvolverem sua própria maneira de fazer filosofia e no capítulo dois trabalha cinco caraterísticas de uma cosmovisão pentecostal. São elas: 1) Uma posição de abertura radical a Deus, 2) uma teologia "encantada" da criação e da cultura, 3) uma afirmação não dualista da personificação e da materialidade, 4) uma epistemologia afetiva, narrativa e 5) uma orientação escatológica para a missão e a justiça. Smith chega a esses cinco elementos com base em sua análise da espiritualidade pentecostal. (pp. 33-46). Os próximos quatro capítulos exploram ainda mais a contribuição do entendimento de Smith de uma cosmovisão pentecostal em relação às seguintes áreas de estudo: epistemologia (capítulo 3), metafísica (capítulo 4), filosofia da religião (capítulo 5) e filosofia da linguagem (capítulo 6).

Smith segue falando da Epistemologia da espiritualidade Pentecostal. Para ele, ela é apoiada ou precursora de um tipo pós-moderno de teoria do conhecimento. Nela, a narrativa tem o papel principal de fazer do pentecostalismo um tipo de contra-modernidade (p. 50) Todos sabemos que os Pentecostais são os cristãos das histórias e nesse sentido, nos aproximamos mais da Pós-Modernidade do que da Modernidade. Smith usa a expressão ‘proto-pós-moderna’ na medida em que critica os entendimentos excessivamente cognitivistas da antropologia e epistemologia inerentes ao racionalismo moderno. Smith ressalta, com razão, que quando se olha para o culto pentecostal, há uma ênfase distinta em uma epistemologia afetiva e narrativa.

Além disso, a própria Ontologia Pentecostal é diferente da Evangélica. Enquanto os Evangélicos aderiram a um sobrenaturalismo intervencionista onde há um universo fechado que às vezes é invadido por Deus, nossa contribuição para essa campo seria de que o universo é encantado, uma realidade cheia do Espírito. Desta forma, o cosmos está cheio da presença e graça de Deus. Outro erudito pentecostal que trabalha bem essa questão é Amos Yong, muito embora ele tenha levado para outra direção, em específico na área do diálogo inter-religioso. Segundo Smith, a nossa ontologia é elástica e envolve um universo onde o físico e o não-físico são misturados, logo nossa ontologia possui uma abertura radical, diferente daquela que emerge da metafísica reducionista naturalista. Ele até admite que os pentecostais geralmente se apegaram a um modelo sobrenatural intervencionista, mas ele argumenta que os pentecostais deveriam adotar um naturalismo encantado ou um sobrenaturalismo não-intervencionista que se alinharia mais consistentemente com seus compromissos pentecostais. O que está em questão aqui é a rejeição de Smith de uma estrutura dualística que separa o "natural" do "sobrenatural". Em vez disso, ele propõe uma visão integrada da realidade, onde a natureza não é um sistema fechado e autônomo, sem a presença e a atividade do Espírito de Deus. Nas suas palavras:

“O Espírito já está sempre presente pela e na criação. A presença do Espírito não é uma "visita" pós-capsariana ou soteriológica de uma criação que, de outra forma, não tem Deus; antes, o Espírito já está sempre dinamicamente ativo no cosmos / mundo / natureza. Deus não precisa 'entrar' na natureza como visitante e estrangeiro; Deus já está sempre presente no mundo. Assim, a criação é preparada para a ação do Espírito. (p. 102-103).

Smith também dialoga com Derrida, Polanyi, Michael Foucault, entre outros, expondo como a crítica pós-moderna atuou no processo de avaliação da modernidade. Nas suas palavras: "Correndo o risco de cair no clichê, a crítica pós-moderna da modernidade descobriu que o que muitas vezes era apresentado como ‘racional’ era o que os homens brancos europeus pensavam ser uma boa ideia" (p. 57). Obviamente, os Pentecostais não abraçaram tudo da Pós-Modernidade. Se nela, o conceito de verdade pode ser liquido e não algo sólido como pontua Bauman, este é um ponto em que os pentecostais ficam distantes, pois a Bíblia é verdadeira em todas as suas proposições, aponta para a verdade e não pode ser relativizada.

No último capítulo, o autor propõe como a prática pentecostal do falar em línguas pode contribuir para a filosofia da linguagem. Nessa parte algo que me chamou muito atenção foi o reconhecimento das diferenças entre Lucas e Paulo, e até as distinções no próprio entendimento de Paulo da função do discurso em línguas. Em geral, os pentecostais reconhecem diferentes funções do discurso em línguas nas Escrituras e na prática, mas o que essas funções realmente são e como elas se relacionam com as práticas contemporâneas continua sendo uma questão muito discutida, tanto na igreja quanto na academia, muito embora muita coisa já tenha sido dita. Além do mais, as línguas para Smith, é um idioma de resistência, desenvolvendo dessa forma sua natureza sócio-política. Ele afirma:

“Como ação, uma das coisas que o falar em línguas faz é efetivar um tipo de resistência social aos futuros poderes. Ou talvez devêssemos dizer que o discurso em línguas é a linguagem das comunidades de fé marginalizadas pelos futuros poderes, e esse discurso pode ser indicativo de uma espécie de resistência escatológica aos poderes. Podemos dizer que o proletariado fala em línguas” (p. 147).

UMA PALAVRA PARA O FUTURO

            É claro que muita coisa que Smith disse poderia ser melhorada, mas para isso, as pessoas precisam primeiro entender o que foi dito. Mas será que os pentecostais brasileiros estão dispostos a dialogar?

         A verdade é que se quisermos de fato contribuir para o debate acerca de uma cosmovisão pentecostal, devemos primeiro compreender não somente o movimento em si, mas também o que os teólogos, teóricos, filósofos e apologistas pentecostais tem a dizer. Nos próximos 5 anos seremos bombardeados (graças a Deus) com uma produção em massa de obras sobre pentecostalismo, escrita por teólogos nacionais e internacionais. Dada a escassez de obras mais holísticas, será natural que muitas pessoas estranhem expressões e debates sobre ‘novos assuntos’ (ou assuntos desconhecidos), por assim dizer. Por isso, gostaria de deixar alguns conselhos aos meus queridos leitores:

            Não veja o pentecostalismo como um sistema fechado que fala uma única língua. O Pentecostalismo é um movimento plural, de muitas vozes. Muito embora tenhamos nossa própria identidade, existem aspectos do movimento que fazem parte da sua diversidade. Compreender a diversidade idiomática do movimento é crucial para crescer nos seus estudos e principalmente na prática.

      Não caia no engodo de achar que tudo que tinha para ser dito sobre o pentecostalismo, foi dito pelos pioneiros. Muitos pentecostais brasileiros estranham quando veem uma temática que foi ignorada pelos nossos teólogos antepassados como perigosa e suspeita. Mas na verdade, não podemos ver a coisa dessa forma, pois não somos um movimento estático. A nossa teologia está em movimento e na medida que os problemas mudam, a forma como se responde a cada um também muda e precisa estar à altura.  Sem falar que muitas das coisas que os pioneiros defenderam lá no início do movimento, hoje não é mais defendida pela maioria de nós, porque crescemos e evoluímos. O que vejo na tentativa de muitos que se apegam à tradição, é que eles selecionam apenas aquilo que lhes é comum e ignoram o restante do contexto. Obviamente, a nossa tradição é importante, mas não determinante.

    Cuidado com aqueles que nunca construíram nada para o pentecostalismo, mas que se dizem defensores do movimento. Estes, estão preocupados mais em fazer barulho do que em contribuir de fato para um debate saudável. Portanto, é muito comum que elas estejam mais preocupadas em rotular do que em dialogar. Sem falar que adotam posturas de militância, sensacionalismo e autoritarismo, além de ignorar ameaças iminentes mais urgentes ao movimento.

            Tenha senso crítico. Obviamente, você não pode concordar com qualquer coisa que você lê. Mas certifique-se que você primeiro compreendeu o que leu, a fim de não cometer injustiças em seus pronunciamentos.

            Tente encontrar unidade na diversidade. Aquilo que nos une deve ser maior do que aquilo que nos separa. Logo, mesmo que você não concorde com o que o outro diz acerca de um assunto, isso não quer dizer que ele é seu inimigo.  

            Enfim, se quisermos construir e contribuir para o debate acerca da cosmovisão pentecostal, devemos abraçar estes conselhos. Que Deus os abençoe!

31 de maio de 2020

"Não consigo respirar"- Até quando seremos omissos?




Por Everton Edvaldo

Nos últimos dias, viralizou pelo mundo o caso do assassinato do negro Gerge Floyd por um policial. Novamente, a pauta sobre o racismo voltou a estar em alta. Os extremismos logo começaram: vários negros revoltados e indignados destruíram e queimaram lojas, carros, dentre outras coisas. Nesse ínterim, a ala mais política e ideológica reaparece no cenário com mais força para implantar suas bandeiras. Esse não foi o primeiro caso de racismo, nem será o último, lamentavelmente, mas o meu texto é para lidar com uma coisa ainda mais grave: a omissão daqueles que se dizem ortodoxos, conservadores e bíblicos.

Em primeiro lugar, não é verdade que todos que são conservadores são omissos quanto a isso, existe um remanescente dentro desse nicho que tenta conscientizar os demais da importância desse tema. Mas esse remanescente é muito pequeno e inexpressivo e muitas vezes, é “sufocado” ou ignorado pela massa.

Em segundo lugar, o Cristianismo ainda nos dias de hoje tem deixado a desejar na forma como se relaciona com as questões sociais. Com exceção de alguns avanços que foram feitos historicamente nesses últimos 2000 anos, boa parte da preocupação dos cristãos até o século XVIII era com questões espirituais. Os poucos que ascenderam à status sociais, subiram ao poder e podendo fazer algo por causas justas, pouco fizeram, ou não fizeram nada. Obviamente, questões espirituais são importantes, mas estas não anulam as questões sociais que são implicações práticas da mesma. Por exemplo, a questão da escravidão foi discutida de forma efetiva tardiamente na história da igreja. É nos dias de John Wesley com sua luta abolicionista que as coisas começam a mudar. Várias outras questões como o papel da mulher na igreja e na sociedade foram simplesmente ignoradas e omitidas por muitos, e essa postura de se isentar dos problemas alimentou movimentos revolucionários, progressistas, feministas e ideológicos.

Em terceiro lugar, quem disse que para defender causas sociais eu preciso ser adepto de hermenêuticas sociais ou de ideologias políticas que não são conservadoras (como o esquerdismo, por exemplo)? É justamente por conta da nossa omissão que esses grupos crescem, ganham voz e espaço. Se nós estivéssemos cortando a nossa grama de forma efetiva, talvez o nosso quintal não estivesse tão entulhado. Sim meus amigos, um dos grandes responsáveis pela proliferação e captação de cristãos por esses movimentos mais reacionários são os próprios cristãos ditos conservadores que ao invés de tratar o problema à altura, terceiriza de forma indireta sua responsabilidade. Rotular, censurar e ser intolerante com esses grupos além de ser a forma mais estratégica de promove-los, viabiliza munições para que eles tenham sucesso em suas agendas.

Em quarto lugar, a pauta do oprimido, é uma pauta bíblica. Não é porque um cristão de esquerda a toma para si que faz dela menos bíblica. Obviamente, eu discordo da leitura que é feita por esse movimento, mas isso não faz da pauta menos importante. A pauta da injustiça social ou da desigualdade é real, e antes de ser de esquerda ou de direita, ela é um grito da humanidade, grito este já dado por muitos daqueles personagens que fizeram parte da Bíblia como os pobres, oprimidos, órfãos, mulheres, viúvas, estrangeiros, a quem Deus tanto amou, acolheu e amparou.

Em quinto lugar, o que aconteceu com George Floyd não está muito distante da nossa realidade. Nossas igrejas estão cheias de pessoas que não conseguem mais respirar, elas não aguentam mais! A omissão da igreja brasileira em muitos aspectos, contribui para que mais e mais pessoas sejam torturadas até a ‘morte’ (algumas físicas, inclusive). Por exemplo:

“Não consigo respirar” é o grito do casal de adolescentes que infelizmente, não tendo do seu pastor uma orientação sexual, um trabalho de mentoria/ instrução, cairá em fornicação, e será obrigado pela igreja a casar, não recebendo nenhum suporte e empurrando com a barriga um casamento que potencialmente já vai começar destruído.

“Não consigo respirar” é o grito da mulher que é agredida e violentada pelo esposo cristão e que quando busca ajuda na igreja, recebe o conselho de líderes e outras irmãs para orar por ele, ao invés de denunciar.

“Não consigo respirar” é o grito da pessoa que é cristã/salva que está passando por depressão que receberá reações de irmãos da igreja do tipo “isso é frescura,” “depois passa”, “isso é opressão demoníaca, vamos orar” e que se vier a cometer suicídio, ainda será julgada como alguém que não era cristã e que foi para o inferno.

“Não consigo respirar” é o grito das crianças que são abusadas por líderes/pastores de igrejas e até por pais cristãos, grito esse que muitas vezes é abafado pela instituição.

“Não consigo respirar” é o grito daquela pessoa que é cristã e que está lutando contra desejos homoafetivos e que será discriminada por seu jeito fora do padrão “heterossexual.”

“Não consigo respirar” é o grito daquele pai família cristão que dizima há 10 anos, mas que quando está desempregado, passando necessidade, a igreja simplesmente ignora e se brincar, ainda liga ‘cobrando’ o dízimo do mês.

“Não consigo respirar” é o grito daquela família que na igreja se comporta como se tudo estivesse bem, mas dentro de casa, vive um verdadeiro inferno.

“Não consigo respirar” é o grito daquela mulher que se for traída e pedir divórcio, será discriminada pela igreja.

Enfim, “não consigo respirar” não é somente o grito de um negro, é um grito de todos, é um grito de socorro que representa uma parcela de pessoas que estão simplesmente tendo seus problemas ignorados pela igreja contemporânea. Oro a Deus para que isso mude logo!